Maria Cheia de Graça
Aí estou de volta depois de um tempão estreando em crítica sobre arte que adoro: cinema
Ontem assisti a um filme intrigante: Maria Cheia de Graça. O filme americano, mas falado em espanhol, do diretor estreante Joshua Marston trata de uma jovem de dezessete anos (Maria)que vive as dificuldades da falta de horizontes de muitos do habitantes de países do terceiro mundo, e quando sua situação se torna ainda mais complicada ela resolve recorrer a um caminho aparentemente fácil: o tráfico de drogas, carregando drogas em seu estômago para os Estados Unidos.
Joshua Marston conduz a câmera de forma documental, com poucos cortes, documentando uma realidade, sem ter a pretensão de levantar questões mais profundas sobre o tráfico de drogas, ou coisas assim. Vai atrás de Maria (numa atuação muito boa de Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar esse ano) e nos envolve de uma forma impressionante em sua empreitada, nos deixando tensos em algumas partes do filme sobre o futuro da protagonista, como na parte da sua viagem no avião, e sua chegada no aeroporto. Mostra uma jovem comum, que sonha em uma vida melhor, sem mostrá-la como heroína, é apenas mais uma latino americana enveredando por caminhos alternativos para melhorar de vida, há milhares de quilômetros de casa. A atuação de Catalina nos mostra uma personagem corajosa e forte, mas em outros momentos não nos deixa esquecer que é apenas uma adolescente de dezessete anos. Muito boa.
O filme realmente nos prende, nos agonia, e também nos emociona, sem ser piegas ou apelativo. Não é uma obra prima, a curta duração do filme nos dá impressão que certos momentos poderiam ser melhores explorados. Nos comentários do diretor é impressionante a preocupação dele em não tornar o filme longo e chato, mas não presisava exagerar! O filme ficou enxuto sim, mas até demais.
Filme bom, competente e tocante: Vale a pena.
Praça
Dona Marina é uma conservada senhora que está na melhor idade e não tem do que reclamar. Tem uma boa aposentadoria, que somada com sua pensão, lhe dão um bom padrão de vida. Seus filhos estão encaminhados e não lhe dão problemas . Considera-se feliz.
Para se ocupar, uma das coisa que mais faz é apreciar, da janela de seu apartamento, a movimentação da mais bonita praça da cidade, que há em frente ao seu prédio.
Crianças as quais viu os primeiros passos hoje lá vão namorar, pais que antes traziam seus filhos hoje trazem seus netos. O verde da grama, o som das risadas infantis, como é bom se revitalizar com alegria a jovialidade..... A praça daquele centro relativamente decadente, tinha importância imensa para ela. Sua beleza só poderia ser apreciada em fotos. O padrão de outrora não é o mesmo. Sua amargura afastara muitos.
A pior parte de seu dia é quando cai a noite. Sua insônia não lhe permite dormir, e o contraste da realidade da madrugada do centro lhe faz virar as costas para a janela.
Bancos são ocupados por mendigos, deficientes mentais abandonados, crianças e jovens que buscam nas drogas a saída para seu labirinto de miséria e problemas. Ao nascer do dia elas já não se esvaem como antes. Assaltos, gritarias, afastam aos poucos os bons freqüentadores. É obrigada a virar de costas para a janela, e encarar sua vida. Seus filhos não lhe dão problemas? Pois nunca a visitam. Suas amigas as quais saía, ou morreram, ou não tem mais saúde para acompanhá-la. E sua fiel empregada de tantos anos, livrou-se do péssimo gênio de sua patroa na primeira oportunidade. Mudou-se para o interior para morar com a filha.
Sua mania de achar-se auto suficiente refletiu-se nesse presente difícil de ser encarado.
No momento, está empenhada na criação de uma associação de amigos da praça. Nunca esteve tão envolvida em algo que não está direcionado exclusivamente a ela. Pressiona vereadores, protesta, arrecada dinheiro, até no jornal local da hora do almoço já deu entrevista.
É muito mais fácil lutar pela aquela praça, do que encarar e lutar pela sua própria vida.