Uma das características de muitos filmes de Pedro Almodóvar é a sua capacidade de tratar temas pesados com leveza. Leia-se leveza, não superficialidade. Traumas, assassinatos, seqüestros e afins. Tudo fica até meio engraçado. No caso de “De Salto Alto” (Tacones Lejanos, 1991), muito engraçado.
Marisa Paredes e Victoria Abril, que trabalharam em vários filmes do diretor, interpretam mãe e filha, Becky e Rebecca. Becky é uma famosa cantora que deixou seu país e sua filha para cuidar de sua carreira. Após 15 anos ela volta e se reencontra com sua filha e com seu passado. Rebecca, apesar dos traumas de infância, parece não guardar mágoas de sua mãe e no momento está casada com um homem que foi a grande paixão de Becky.
O visual trash, colorido, cheio de azuis e vermelhos fortes ainda é marca nesse filme como em outros dessa fase. O exagero, as músicas dramáticas, mistério de assassinato, tudo é usado para explorar a relação mãe e filha, questão central do filme e tão importante no universo feminino, o qual é largamente explorado pelo cineasta em suas obras.
Personagens de Almodóvar nunca são maniqueístas, e são, quase sempre, traumatizadas. O exagero da imagem reflete o exagero de emoções vividas pelas personagens, o que é reflexo da própria vida do cineasta, que declara publicamente a profunda relação entre sua obra e sua vida pessoal. Sua mãe vestiu-se apenas de preto desde os três anos de idade, em virtude do falecimento de seu pai, até o nascimento de Pedro, e a partir daí, nunca mais usou cores escuras, só cores vivas.
Essa dubiedade de sentimentos está presente em Rebecca, em tudo que ela sente por sua mãe. Admiração, competição, mágoa, carência, saudade. Tudo ao mesmo tempo, e tudo exagerado, mas concomitantemente, engraçado. Quem lê sobre os elementos da história talvez não imagine a quantidade de risadas que dei ao assistir ao filme pela primeira vez, enquanto outras pessoas ao meu lado também riam e outras até choravam. Coisas de Almodóvar mesmo.
Um dos pontos marcantes de seus filmes, em especial nesse, é a resolução inverossímil. Os traumas e vicissitudes vividas pelos personagens podem ser comuns a muitos. Mas o cineasta sempre nos dá um tom de esperança, algo como “tudo pode ser resolvido”. Pena que na vida real geralmente seja muito diferente.
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